PAULO FREIRE - Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. 2002.
CAPÍTULO 1- NÃO HÁ
DOCÊNCIA SEM DISCÊNCIA
A reflexão crítica
da prática é uma exigência da relação teoria/ prática, sem a
qual a teoria irá virando apenas palavras, e a prática, ativismo.
Há um processo a ser
considerado na experiência permanente do educador. No dia-a-dia ele
recebe os conhecimentos – conteúdos acumulados pelo sujeito, o
aluno, que sabe e lhe transmite.
Neste sentido, ensinar
não é transferir conhecimentos, conteúdos, nem formar é ação
pela qual um sujeito criador dá forma, alma a um corpo indeciso e
acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e
seus sujeitos, apesar das diferenças, não se reduzem à condição
de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende
ensina ao aprender.
Ensinar é mais que
verbo-transitivo relativo, pede um objeto direto: quem ensina, ensina
alguma coisa; pede um objeto indireto: à alguém, mas também
ensinar inexiste sem aprender e aprender inexiste sem ensinar.
Só existe ensino
quando este resulta num aprendizado em que o aprendiz se tornou capaz
de recriar ou refazer o ensinado, ou seja, em que o que foi ensinado
foi realmente aprendido pelo aprendiz.
Esta é a vivência
autêntica exigida pela prática de ensinar-aprender. É uma
experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica,
pedagógica, estética e ética.
Nós somos “seres
programados, mas, para aprender” (François Jacob). O processo de
aprender pode deflagrar no aprendiz uma curiosidade crescente que
pode torná-lo mais e mais criador, ou em outras palavras: quanto
mais criticamente se exerça a capacidade de aprender tanto mais se
constrói e desenvolve a “curiosidade epistemológica”, sem a
qual não alcançamos o conhecimento cabal do objeto.
1. ENSINAR EXIGE
RIGOROSIDADE METODOLÓGICA
O educador democrático,
crítico, em sua prática docente deve forçar a capacidade de
crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão. Trabalhar
com os
educandos a
rigorosidade metódica com que devem se “aproximar” dos objetos
cognoscíveis, é uma de suas tarefas primordiais. Para isso, ele
precisa ser um educador criador, instigador, inquieto, rigorosamente
curioso, humilde e persistente. Deve ser claro para os educandos que
o educador já teve e continua tendo experiência de produção de
certos saberes e que estes não podem ser simplesmente transferidos a
eles.
Educador e educandos,
lado a lado, vão se transformando em reais sujeitos da construção
e da reconstrução do saber. É impossível tornar-se um professor
crítico, aquele que é mecanicamente um memorizador, um repetidor de
frases e idéias inertes, e não um desafiador. Pensa mecanicamente.
Pensa errado. A verdadeira leitura me compromete com o texto que a
mim se dá e a que me dou e de cuja compreensão fundamental me vou
tornando também sujeito.
Só pode ensinar certo
quem pensa certo, mesmo que às vezes, pense errado. E uma das
condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiados
certos de nossas certezas. O professor que pensa certo deixa
transparecer aos educandos a beleza de estarmos no mundo e com o
mundo, como seres históricos, intervindo no mundo e conhecendo -o
.Contudo, nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser
produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se
fez velho, e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã.
Ensinar, aprender e
pesquisar lidam com dois momentos do ciclo gnosiológico: o momento
em que se ensina e se aprende o conhecimento já existente, e o
momento em que se trabalha a produção do conhecimento ainda não
existente.
É a prática da
“do-discência”: docência- discência e pesquisa.
2. ENSINAR EXIGE
PESQUISA Não há ensino sem pesquisa, nem pesquisa sem ensino.
Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco,
porque indaguei, porque indago e me indago. Educo e me educo.
Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e para comunicar o
novo.
3. ENSINAR EXIGE
RESPEITO AOS SABERES DO EDUCANDO A escola deve respeitar os saberes
socialmente construídos pelos alunos na prática comunitária.
Discutir com eles a razão de ser de alguns saberes em relação ao
ensino dos conteúdos. Discutir os problemas por eles vividos.
Estabelecer uma intimidade entre os saberes curriculares fundamentais
aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos.
Discutir as implicações políticas e ideológicas, e a ética de
classe relacionada a descasos.
4. ENSINAR EXIGE
CRITICIDADE Entre o saber feito de pura experiência e o resultante
dos procedimentos metodicamente rigorosos, não há uma ruptura, mas
uma superação que se dá na medida em que a curiosidade ingênua,
associada ao saber do senso comum, vai sendo substituída pela
curiosidade crítica ou epistemológica que se rigoriza
metodicamente.
5. ENSINAR EXIGE
ESTÉTICA E ÉTICA Somos seres históricos – sociais, capazes de
comparar, valorizar, intervir, escolher, decidir, romper e por isso,
nos fizemos seres éticos. Só somos porque estamos sendo.
Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é
amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício
educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser
humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação
moral do educando. Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência
é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado.
Pensar certo demanda
profundidade na compreensão e interpretação dos fatos. Não é
possível mudar e fazer de conta que não mudou. Coerência entre o
pensar certo e o agir certo. Não há pensar certo à margem de
princípios éticos, se mudar é uma possibilidade e um direito, cabe
a quem muda, assumir a mudança operada
6. ENSINAR EXIGE A
CORPOREIFICAÇÃO DA PALAVRA PELO EXEMPLO
O professor que ensina
certo não aceita o “faça o que eu mando e não o que eu faço”.
Ele sabe que as palavras às quais falta corporeidade do exemplo
quase nada valem. É preciso uma prática testemunhal que confirme o
que se diz em lugar de desdizê-lo.
7. ENSINAR EXIGE RISCO,
ACEITAÇÃO DO NOVO E REJEIÇÃO A QUALQUER FORMA DE DISCRIMINAÇÃO
- O novo não pode ser negado ou acolhido só porque é novo, nem o
velho recusado, apenas por ser velho. O velho que preserva sua
validade continua novo.
A prática
preconceituosa de raça, classe, gênero ofende a substantividade do
ser humano e nega radicalmente a democracia.
Ensinar a pensar certo
é algo que se faz e que se vive enquanto dele se fala com a força
do testemunho; exige entendimento co-participado. É tarefa do
educador desafiar o educando com quem se comunica e a quem comunica,
produzindo nele compreensão do que vem sendo comunicado. O pensar
certo é intercomunicação dialógica e não polêmica.
8 ENSINAR EXIGE
REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE A PRÁTICA - Envolve o movimento dinâmico,
dialético entre o fazer e o pensar sobre o fazer. É fundamental que
o aprendiz da prática docente saiba que deve superar o pensar
ingênuo, assumindo o pensar certo produzido por ele próprio,
juntamente com o professor formador. Por outro lado, ele deve
reconhecer o valor das emoções, da sensibilidade, da afetividade,
da intuição.
Através da reflexão
crítica sobre a prática de hoje ou de ontem é que se pode melhorar
a próxima prática. E, ainda, quanto mais me assumo como estou sendo
e percebo a razão de ser como estou sendo, mais me torno capaz de
mudar, de promover-me do estado da curiosidade ingênua para o de
curiosidade epistemológica. Decido, rompo, opto e me assumo.
9. ENSINAR EXIGE O
RECONHECIMENTO E A ASSUNÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL - Uma das
tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar
condições para que os educandos em suas relações sejam levados à
experiências de assumir-se. Como ser social e histórico, ser
pensante, transformador, criador, capaz de ter raiva porque capaz de
amar.
A questão da
identidade cultural não pode ser desprezada. Ela está relacionada
com a assunção do indivíduo por ele mesmo e se dá, através do
conflito entre forças que obstaculizam essa busca de si e as que
favorecem essa assunção.
Isto é incompatível
com o treinamento pragmático, com os que se julgam donos da verdade
e que se preocupam quase exclusivamente com os conteúdos.
Um simples gesto do
professor pode impulsionar o educando em sua formação e
auto-formação. A experiência informal de formação ou deformação
que se vive na escola, não pode ser negligênciada e exige reflexão.
Experiências vividas nas ruas, praças, trabalho, salas de aula,
pátios e recreios são cheias de significação.
CAPÍTULO 2 - ENSINAR
NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTO
. . . mas, criar
possibilidades ao aluno para sua própria construção. Este é o
primeiro saber necessário à formação do docente, numa perspectiva
progressista. É uma postura difícil a assumir diante dos outros e
com os outros, face ao mundo e aos fatos, ante nós mesmos. Fora
disso, meu testemunho perde eficácia.
1. ENSINAR EXIGE
CONSCIÊNCIA DO INACABAMENTO - Como professor crítico sou
predisposto à mudança, à aceitação do diferente. Nada em minha
experiência docente deve necessariamente repetir-se. A inconclusão
é própria da experiência vital. Quanto mais cultural o ser, maior
o suporte ou espaço ao qual o ser se prende “afetivamente” em
seu desenvolvimento. O suporte vai se ampliando, vira mundo e a vida,
existência na medida em que ele se torna consciente, apreendedor,
transformador, criador de beleza e não de “espaço” vazio a ser
preenchido por conteúdos.
A existência envolve
linguagem, cultura, comunicação em níveis profundos e complexos; a
“espiritualização”, possibilidade de embelezar ou enfear o
mundo faz
dos homens seres
éticos, portanto capazes de intervir no mundo, de comparar, ajuizar,
decidir, romper, escolher. Seres capazes de grandes ações, mas
também de grandes baixezas. Não é possível existir sem assumir o
direito e o dever de optar, decidir, lutar, fazer política.
Daí a imperiosidade da
prática formadora eminentemente ética. Posso ter esperança, sei
que é possível intervir para melhorar o mundo. Meu “destino”
não é predeterminado, ele
precisa ser feito e
dessa responsabilidade não posso me eximir. A História em que me
faço com os outros e dela tomo parte é um tempo de possibilidades,
de problematização do futuro e não de inexorabilidade.
2. ENSINAR EXIGE O
RECONHECIMENTO DE SER CONDICIONADO
É o saber da nossa
inconclusão assumida. Sei que sou inacabado, porém consciente
disto, sei que posso ir mais além, através da tensão entre o que
herdo geneticamente e o que herdo social, cultural e historicamente.
Lutando deixo de ser apenas objeto, para ser também sujeito da
História.
A consciência do mundo
e de si como ser inacabado inscrevem o ser num permanente movimento
de busca. E nisto se fundamenta a educação como processo
permanente.
Na experiência
educativa aberta à procura, educador e alunos curiosos,
“programados, mas para aprender”, exercitarão tanto melhor sua
capacidade de aprender e ensinar, quanto mais se façam sujeitos e
não puros objetos do processo.
3. ENSINAR EXIGE
RESPEITO À AUTONOMIA DO SER DO EDUCANDO
. . . à sua dignidade
e identidade. Isto é um imperativo ético e qualquer desvio nesse
sentido é uma transgressão. O professor autoritário e o licencioso
são transgressores da eticidade. Ensinar, portanto, exige respeito à
curiosidade e ao gosto estético do educando, à sua inquietude,
linguagem, às suas diferenças. O professor não pode eximir-se de
seu dever de propor limites à liberdade do aluno,
nem de ensiná-lo. Deve
estar respeitosamente presente à sua experiência formadora.
4. ENSINAR EXIGE BOM
SENSO - Quanto mais pomos em prática de forma metódica nossa
capacidade de indagar, aferir e duvidar, tanto mais crítico se faz
nosso bom senso. Esse exercício vai superando o que há de
instintivo na avaliação que fazemos de fatos e acontecimentos. O
bom senso tem papel importante na nossa tomada de posição em face
do que devemos ou não fazer, e a ele não pode faltar a ética.
5. ENSINAR EXIGE
HUMILDADE, TOLERÂNCIA E LUTA EM DEFESA DOS DIREITOS DOS EDUCADORES -
A luta dos professores em defesa de seus direitos e dignidade, deve
ser entendida como um momento importante de sua prática docente,
enquanto prática ética. Em conseqüência do desprezo a que é
relegada a prática pedagógica, não posso desgostar do que faço
sob pena de não fazê-lo bem. Necessito cultivar a humildade e a
tolerância, afim de manter meu respeito de professor ao educando. É
na competência de profissionais idôneos que se organiza
politicamente a maior força dos educadores. É preciso priorizar o
empenho de formação permanente dos quadros do magistério como
tarefa altamente política, e repensar a eficácia das greves.
Não é parar de lutar,
mas reinventar a forma histórica de lutar.
6. ENSINAR EXIGE
APREENSÃO DA REALIDADE - Preciso conhecer as diferentes dimensões
da prática educativa, tornando-me mais seguro em meu desempenho. O
homem é um ser consciente que usa sua capacidade de aprender não
apenas para se adaptar, mas sobretudo para transformar a realidade.
A memorização
mecânica não é aprendizado verdadeiro do conteúdo. Somos os
únicos seres que social e historicamente, nos tornamos capazes de
apreender. Para nós, aprender é aventura criadora, é construir,
reconstruir, constatar para mudar, e isto não se faz sem abertura ao
risco.
O papel fundamental do
professor progressista é contribuir positivamente para que o
educando seja artífice de sua formação, e ajudá-lo nesse empenho.
Deve estar atento à difícil passagem da heteronomia para a
autonomia para não perturbar a busca e investigações dos educandos
7. ENSINAR EXIGE
ALEGRIA E ESPERANÇA - Esperança de que professor e alunos juntos
podem aprender, ensinar, inquietar-se, produzir e também resistir
aos obstáculos à alegria. O homem é um ser naturalmente
esperançoso. A esperança crítica é indispensável à experiência
histórica que só acontece onde há problematização do futuro. Um
futuro não determinado, mas que pode ser mudado.
8. ENSINAR EXIGE A
CONVICÇÃO DE QUE A MUDANÇA É POSSÍVEL É o saber da História
como possibilidade e não como determinação. O mundo não é, está
sendo. Meu papel histórico não é só o de constatar o que ocorre,
mas também o de intervir como sujeito de ocorrências. Constato não
para me adaptar, mas para mudar a realidade.
A partir desse saber é
que vamos programar nossa ação político-pedagógica, seja qual for
o projeto a que estamos comprometidos. Desafiando os grupos populares
para que percebam criticamente a violência e a injustiça de sua
situação concreta; e que também percebam que essa situação,
ainda que difícil, pode ser mudada. Como educador preciso considerar
o saber de “experiência feito” pelos grupos populares, sua
explicação do mundo e a compreensão de sua própria presença
nele. Tudo isso vem explicitado na “leitura do mundo” que precede
a “leitura da palavra”.
Contudo, não posso
impor a esses grupos meu saber como o verdadeiro. Mas, posso dialogar
com eles, desafiando-os a pensar sua história social e a perceber a
necessidade de superarem certos saberes que se revelam inconsistentes
para explicar os fatos.
9. ENSINAR EXIGE
CURIOSIDADE - Procedimentos autoritários ou paternalistas impedem o
exercício da curiosidade do educando e do próprio educador. O bom
clima pedagógico-democrático levará o educando a assumir
eticamente limites, percebendo que sua curiosidade não tem o direito
de invadir a privacidade do outro, nem expô-la aos demais. Como
professor devo saber que sem a curiosidade que me move, não aprendo
nem ensino. É fundamental que alunos e professor se assumam
epistemologicamente curiosos. Saibam que sua postura é dialógica,
aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto fala ou ouve.
O exercício da
curiosidade a faz mais criticamente curiosa, mais metodicamente
“perseguidora” do seu objetivo. Quanto mais a curiosidade
espontânea se intensifica e se “rigoriza”, tanto mais
epistemologicamente vai se tornando. Um dos saberes fundamentais à
prática educativo-crítica é o que adverte da necessária promoção
da curiosidade espontânea para curiosidade epistemológica.
CAPÍTULO 3 - ENSINAR É
UMA ESPECIFICIDADE HUMANA
1. ENSINAR EXIGE
SEGURANÇA, COMPETÊNCIA PROFISSIONAL E GENEROSIDADE - A Segurança é
fundamentada na competência profissional, portanto a incompetência
profissional desqualifica a autoridade do professor. A autoridade
deve fazer-se generosa e não arrogante. Deve reconhecer a eticidade.
O educando que exercita sua liberdade vai se tornando tão mais livre
quanto mais eticamente vá assumindo as responsabilidades de suas
ações. Testemunho da autoridade democrática deixa claro que o
fundamental é a construção, pelo indivíduo, da responsabilidade
da liberdade que ele assume. É o aprendizado da autonomia.
2. ENSINAR EXIGE
COMPROMETIMENTO - A maneira como os alunos me percebem tem grande
importância para o meu desempenho. Não há como sendo
professor não revelar
minha maneira de ser, de pensar politicamente, diante de meus alunos.
Assim, devo preocupar-me em aproximar cada vez mais o que digo do que
faço e o que pareço ser do que realmente estou sendo.
Minha presença é uma
presença em si política, e assim sendo, não posso ser uma omissão,
mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunos, minha capacidade
de analisar, comparar, avaliar; de fazer justiça, de não falhar à
verdade. Meu testemunho tem que ser ético. O espaço pedagógico
neutro prepara os alunos para práticas apolíticas. A maneira humana
de se estar no mundo não é, nem pode ser neutra.
3. ENSINAR EXIGE
COMPREENDER QUE A EDUCAÇÃO É UMA FORMA DE INTERVENÇÃO NO MUNDO -
Implica tanto o esforço de reprodução da ideologia dominante
quanto seu desmascaramento. Como professor minha prática exige de
mim uma definição. Decisão. Ruptura. Como professor sou a favor da
luta contra qualquer forma de discriminação, contra a dominância
econômica dos indivíduos ou das classes sociais, etc. Sou a favor
da esperança que me anima apesar de tudo. Não posso reduzir minha
prática docente ao puro ensino dos conteúdos, pois meu testemunho
ético ao ensiná-los é igualmente importante. É o respeito ao
saber de “experiência feito” dos alunos, o qual busco superar
com eles. É coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço.
4. ENSINAR EXIGE
LIBERDADE E AUTORIDADE - A autonomia vai se constituindo na
experiência de várias e inúmeras decisões que vão sendo tomadas.
Vamos amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto
amadurecimento do ser por si, é processo; é vir a ser. Não posso
aprender a ser eu mesmo se não decido nunca porque há sempre alguém
decidindo por mim.
Quanto mais
criticamente assumo a liberdade, tanto mais autoridade ela tem para
continuar lutando em seu nome.
5. ENSINAR EXIGE TOMADA
CONSCIENTE DE DECISÕES - A educação, especificidade humana é um
ato de intervenção no mundo. Tanto intervenções que aspiram
mudanças radicais na sociedade, no campo da economia, das relações
humanas, da propriedade, do direito ao trabalho, à terra, à
educação, etc. quanto as que pelo contrário, pretendem imobilizar
a História e manter a ordem injusta.
A educação não vira
política por causa da decisão deste ou daquele educador. Ela é
política e sua raiz se acha na própria educabilidade do ser humano,
que se funde na sua natureza inacabada e da qual se tornou
consciente. O ser humano, assim se tornou um ser ético, um ser de
opção, de decisão.
Diante da
impossibilidade da neutralidade da educação, é importante que o
educador saiba que se a educação não pode tudo, alguma coisa
fundamental ela pode. O educador crítico pode demonstrar que é
possível mudar o país. E isto reforça nele a importância de sua
tarefa político-pedagógica. Ele sabe o valor que tem para a
modificação da realidade, a maneira consistente com que vive sua
presença no mundo. Sabe que sua experiência na escola é um momento
importante que precisa ser autenticamente vivido.
6. ENSINAR EXIGE SABER
ESCUTAR - Aprendemos a escutar escutando. Somente quem escuta
paciente e criticamente o outro, fala com ele, e sem precisar se
impor. No processo da fala e escuta, a disciplina do silêncio a ser
assumido a seu tempo pelos sujeitos que falam e escutam é um “sine
qua” da comunicação dialógica. É preciso que quem tem o que
dizer saiba, que sem escutar o que quem escuta tem igualmente a
dizer, termina por esgotar sua capacidade de dizer. Quem tem o que
dizer deve assim, desafiar quem escuta, no sentido de que, quem
escuta diga, fale, responda.
O espaço do educador
democrático, que aprende a falar escutando, é cortado pelo silêncio
intermitente de quem falando, cala para escutar a quem, silencioso, e
não silenciado, fala.
Não há inteligência
da realidade sem a possibilidade de ser comunicada. O professor
autoritário que recusa escutar os alunos, impede a afirmação do
educando como sujeito de conhecimento. Como arquiteto de sua própria
prática cognoscitiva.
7. ENSINAR EXIGE
RECONHECER QUE A EDUCAÇÃO É IDEOLÓGICA
Ideologia tem que ver
diretamente com a ocultação da verdade dos fatos, com o uso da
linguagem para opacizar a realidade, ao mesmo tempo que nos torna
“míopes”. Sabemos que há algo no meio da penumbra, mas não o
divisamos bem. Outra possibilidade que temos é a de docilmente
aceitar que o que vemos e ouvimos é o que na verdade é, e não a
verdade distorcida.
Por exemplo, o discurso
da globalização que fala da ética, esconde porém, que a sua ética
é a do mercado e não a ética universal do ser humano, pela qual
devemos lutar se optamos, na verdade, por um mundo de gente.
A teoria da
transformação político-social do mundo, deve fazer parte de uma
compreensão do homem enquanto ser fazedor da História, e por ela
feito, ser da decisão, da ruptura, da opção. Seres éticos.
Os avanços científicos
e tecnológicos devem ser colocados a serviço dos seres humanos.
Para superar a crise em que nos achamos, impõe-se o caminho ético.
Como professor, devo
estar advertido do poder do discurso ideológico. Ele nos ameaça de
anestesiar a mente, de confundir a curiosidade, de distorcer a
percepção dos fatos, das coisas. No exercício crítico de minha
resistência ao poder manhoso da ideologia, vou gerando certas
qualidades que vão virando sabedoria indispensável à minha prática
docente. Me predisponho a uma atitude sempre aberta aos demais, aos
dados da realidade, por um lado; e por outro, a uma desconfiança
metódica que me defende de tornar-me absolutamente certo de
certezas.
8. ENSINAR EXIGE
DISPONIBILIDADE PARA O DIÁLOGO Como professor devo testemunhar aos
alunos a segurança com que me comporto ao discutir um tema, analisar
um fato. Aberto ao mundo e aos outros, estabeleço a relação
dialógica em que se confirma a inconclusão no permanente movimento
na História. Postura crítica diante dos meios de comunicação não
pode faltar. Impossível a neutralidade nos processos de comunicação.
Não podemos desconhecer a televisão, mas devemos usá-la,
sobretudo, discuti-la.
9. ENSINAR EXIGE QUERER
BEM AOS EDUCANDOS Querer bem aos educandos e à própria prática
educativa de que participo. Essa abertura significa que a afetividade
não me assusta, que não tenho medo de expressá-la. Seriedade
docente e afetividade não são incompatíveis. Aberto ao querer bem
significa minha disponibilidade à alegria de viver. Quanto mais
metodicamente rigoroso me torno na minha busca e minha docência,
tanto mais alegre e esperançoso me sinto.
Conclusão
O conhecimento
adquirido através da obra de Paulo Freire é com certeza um fator
auxiliador no desenvolvimento das práticas educacionais, de
enfermagem e de vida.
Esta obra é um convite
ao exercício da auto-avaliação e conscientização de valores
sociais, respeito, da forma de educar e de agir.
compreensão, ética e
responsabilidade
É uma obra que merece
respeito tanto de educadores, aducandos, e também todos os
envolvidos com o comprometimento de mudar para melhor, de contribuir
para a conscientização de um mundo melhor. Com respeito,
Através deste livro
obtemos a certeza de que devemos lutar pelos nossos direitos, com o
objetivo de viver e fazer outros viverem dignamente.
É um alerta para o
aperfeiçoamento como indivíduos e cidadãos. Ter competência para
atuar com segurança. Ter humildade para aprender. Ter compreensão
para escutar, ter carinho para doar amor. Ter autoridade para se
fazer respeitar com democracia.
É um estímulo que
deve ser aperfeiçoado todos os dias. Fazer o que se gosta. Batalhar
pelo que se quer. Defender o que ou quem necessita.
Questionar o que vem
sendo a nossa vida, e mudar para melhor. De contribuir para uma
sociedade mais benevolente e justa.
Fazer como Paulo Freire
preocupar-se, lutar para fazer a diferença.
Pois a grandeza de um
Homem não está no quanto ele sabe, mas no quanto ele tem
consciência de que não sabe e está disposto a aprender!
Bibliografia
FREIRE, Paulo Pedagogia
da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo:
Paz e Terra, 2002.
Pesquisa web (Biografia
do autor)
http://www.smec.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espaco-virtual/espacoeducar/ensino-fundamental/educ-jovens-adultos/artigos/biografia.pdf