Democratização
das relações na escola: o significado do trabalho coletivo.
Dinair
Leal da Hora.
Nas
discussões a respeito de gestão democrática na escola é comum
ouvir manifestações de que esta é uma prática quase impossível
de adotar, haja vista a hegemonia de posturas autoritárias que ainda
encontramos nos processos de gestão educacional no Brasil e pelo
reduzido valor que os sujeitos escolares atribuem a essa forma de
atuar. Neste texto apresento uma breve discussão a respeito dos
significados que o trabalho coletivo democrático assume para
professores, estudantes, direção, famílias e funcionários
escolares. A construção da gestão democrática na escola é um
processo. Ocorre com avanços e recuos, na medida em que pais,
estudantes, professores e funcionários têm a oportunidade de opinar
e decidir as ações e as relações educacionais e pedagógicas da
instituição. O desenvolvimento desse processo pressupõe sua
construção no cotidiano escolar, o que não dispensa a necessidade
da reflexão permanente a respeito dos obstáculos e das
potencialidades que se apresentam na realidade concreta, haja vista
que a democracia só se efetiva por ações e relações em que há
coerência entre o discurso e a prática. Admitir a democratização
das relações internas da escola como mediadora para a
democratização educacional significa considerá-la sine qua non,
porém não a única. Há que se considerar os determinantes
econômicos, sociais, políticos e culturais mais amplos que agem em
favor da tendência autoritária enfrentados como manifestação, num
espaço restrito. Para que haja a conquista da participação efetiva
dos sujeitos sociais na gestão da escola é preciso que haja
condições que propiciem essa participação. A participação de
professores, alunos, pais e funcionários na organização da escola,
na escolha dos conteúdos a serem ensinados, nas formas de
administração será tão mais efetivamente democrática, na medida
em que esses sujeitos sociais dominem o significado sócio-político
de suas especificidades numa perspectiva de totalidade. Assim, é
possível afirmar que:
a)
para a comunidade, participar da gestão de uma escola significa
inteirar-se e opinar sobre assuntos para os quais muitas vezes se
encontra despreparada; significa todo um aprendizado político e
organizacional (participar de reuniões, emitir opiniões, anotar,
acompanhar, cumprir decisões); significa mudar sua visão de direção
da escola, passando a não esperar decisões prontas para serem
seguidas; significa, enfim, pensar a escola não como um organismo
governamental, portanto externo, alheio, e sim como um órgão
público que deve ser não apenas fiscalizado e controlado, mas
dirigido pelos seus usuários;
b)
a direção vê-se colocada diante de tarefas eminentemente
políticas, pois assume o papel de dirigente técnico e político. A
abertura não acontece para um todo homogêneo e sim para uma
população dividida, socialmente estratificada e ideologicamente
diferenciada; significa lidar com inúmeras expectativas e projetos
políticos diversos;
c)
para os alunos, a principal mudança refere-se à sua relação com
os professores e com a direção: assumir sua parte de
responsabilidade na direção da escola e do processo pedagógico,
deixando de esperar soluções acabadas e apenas a punição como
saída; compreender que transitar na difícil fronteira entre
liberdade e segurança exige um compromisso com o projeto
educacional, com princípios e também com uma visão mais global e
menos fragmentada da escola;
d)
os professores, descobrindo, (re)descobrindo, inventando, formulando
e aceitando novas premissas, preparam-se para, dialeticamente,
analisar, comparar, estabelecer valores através dos quais avaliam as
diferentes metodologias, mantêm-se atentos para apreciá-los em
relação às posturas teóricas e em relação à sua prática e
contexto, especialmente em situações nas quais a comunidade tem
lugar específico para a construção do currículo.
O
significado social da prática de cada um é capaz de desenvolver a
autonomia e a criatividade na reorganização da escola para melhor
propiciar a sua finalidade: a formação humana de homens e mulheres
nas suas dimensões pessoal e profissional na perspectiva de
contribuir para a democratização da sociedade pela democratização
do saber.
Na
medida em que consegue a participação de todos os seus setores –
educadores, alunos, pais e funcionários – nas decisões a respeito
de seus objetivos e de seu funcionamento, a escola cria melhores
condições para enfrentar os escalões superiores, no sentido de
apropriar-se de autonomia e de recursos. Será muito mais difícil
dizer não de modo autoritário quando a manifestação é de um
grupo que representa todos os segmentos e que esteja fundamentado
pela conscientização que sua própria organização proporciona,
reconhecendo a participação coletiva na gestão escolar como uma
das vias mais legítimas para a melhoria da qualidade do ensino, da
consciência crítica da realidade social para a construção de uma
escola verdadeiramente pública.
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